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El Niño: o que episódios do passado podem sinalizar – 02/06/2026 – Ambiente

Muito antes de ser compreendido, o El Niño já deixava suas marcas na humanidade. El Niño é o nome dado às mudanças nos ventos e nas temperaturas das águas do Pacífico que podem transformar drasticamente os padrões climáticos globais. Ao longo dos séculos, esses padrões provocaram secas e ondas de calor épicas, além de intensificar […]

El Niño: o que episódios do passado podem sinalizar - 02/06/2026 - Ambiente

Muito antes de ser compreendido, o El Niño já deixava suas marcas na humanidade.

El Niño é o nome dado às mudanças nos ventos e nas temperaturas das águas do Pacífico que podem transformar drasticamente os padrões climáticos globais. Ao longo dos séculos, esses padrões provocaram secas e ondas de calor épicas, além de intensificar epidemias.

Alguns especialistas afirmam até mesmo identificar as impressões digitais do El Niño em crises políticas e econômicas no Egito Antigo ou na queda da civilização Moche, no atual Peru, há mais de mil anos. Em 1877 e 1878, uma fome alimentada pelo El Niño matou milhões de pessoas nos trópicos, aprofundando desigualdades que, como descreveu um artigo científico, “mais tarde seriam caracterizadas como ‘primeiro mundo’ e ‘terceiro mundo'”.

Neste momento, o mundo está entrando em uma nova fase do El Niño. Pesquisadores alertam que pode ser uma das mais intensas já registradas e estão citando esse histórico como um aviso de que forças naturais, quando atingem sua magnitude máxima, podem levar a uma profunda volatilidade e dificuldades.

É claro que o atual El Niño está nos estágios iniciais de formação e pode não corresponder às expectativas. Mas, se as previsões se confirmarem, será um fenômeno de grandes proporções e suas consequências se desenrolarão em um mundo que se tornou muito mais resiliente, mas que também apresenta novas vulnerabilidades.

Em comparação com aqueles primeiros tempos, os países hoje monitoram os eventos do El Niño com medidores oceânicos e sistemas de alerta antecipado. A agricultura é muito mais sofisticada, e muitos países vulneráveis a crises alimentares mantêm reservas estratégicas de grãos. Ninguém está prevendo fome em larga escala.

Mas especialistas afirmam que um El Niño aumentaria a pressão sobre um sistema global já precário. A escassez de fertilizantes causada pelo fechamento do estreito de Ormuz está sobrecarregando os agricultores. O aumento dos preços de energia resultante das guerras na Ucrânia e no Irã está corroendo os orçamentos dos países. E uma rede de segurança de longa data foi enfraquecida por cortes na ajuda externa a países mais pobres por parte dos Estados Unidos e de outras nações.

Há possibilidade de “uma tempestade perfeita de fatores”, segundo Laurie Laybourn, que lidera o centro de estudos Strategic Climate Risks Initiative, sediado na Grã-Bretanha. “Poderíamos ver um aumento da pobreza, da desnutrição, de conflitos, do endividamento e de todos os efeitos dominó que decorrem disso.”

Se a história oferece alguma lição, é que eventos fortes de El Niño, como o que começou em 1877, exploram fraquezas já existentes. Aquele El Niño levou a condições de seca severa que se espalharam pelo mundo, incluindo Brasil, sul da África e China.

Poucos lugares foram tão atingidos quanto o sul da Índia. Relatos da época descrevem pessoas tentando sobreviver com raízes e até vendendo filhos que não tinham condições de sustentar.

No entanto, apesar de todo o poder da natureza, fatores causados pelo ser humano muito provavelmente elevaram o número de mortos, que acabou chegando a dezenas de milhões de pessoas. Na época, a Índia estava sob domínio colonial britânico, e o historiador Mike Davis, em seu livro de 2001 “Holocaustos Coloniais”, retrata a Grã-Bretanha como priorizando seus interesses imperiais ao manter enormes exportações de grãos da Índia mesmo enquanto os indianos morriam de fome.

“Os londrinos estavam, na prática, comendo o pão da Índia”, escreveu Davis.

É claro que havia outro fator complicando a resposta. As pessoas da época não faziam ideia de por que as chuvas de monção haviam falhado. Cientistas do século 19 teorizavam uma ligação com o enfraquecimento da atividade das manchas solares.

Um quadro muito mais claro surgiu na década de 1960, quando Jacob Bjerknes, meteorologista da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), reuniu as peças sobre as consequências globais da interação entre oceano e atmosfera no Pacífico.

Séculos antes, os peruanos haviam notado que, às vezes, peixes tropicais apareciam inesperadamente em suas costas por volta do Natal, um fenômeno que acabou sendo batizado de “El Niño”. Bjerknes fez a conexão: o aquecimento do Pacífico que os peruanos haviam detectado estava alterando os padrões climáticos ao redor do mundo.

“Essa foi a grande revelação”, disse o cientista Michael McPhaden, da Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos). “Ele abriu um novo universo de estudos.”

Na década de 1980, cientistas estavam em um navio no meio do Pacífico, ancorando boias que permitiam um monitoramento mais preciso da temperatura do oceano. Paralelamente, pesquisadores buscavam pistas sobre o papel do El Niño na história humana, estudando amostras de anéis de árvores, recifes de coral e diários de bordo de marinheiros, criando uma linha do tempo rudimentar de seus picos.

Os eventos de El Niño são medidos observando os níveis de temperatura em uma vasta zona retangular no Pacífico central. Em um El Niño moderado, as temperaturas podem subir 1 grau Celsius acima de uma média de longo prazo. Mas nos maiores El Niños dos últimos 50 anos —os que começaram em 1982, 1997 e 2015— as temperaturas dispararam 2 graus Celsius ou mais além do normal. Cada um desses eventos cobrou um preço econômico global.

Neste ano, muitas previsões indicam que a temperatura pode aumentar em 3 graus Celsius. Mesmo o El Niño de 1877, pelas melhores estimativas, não teve essa magnitude.

“Vários modelos agora mostram uma chance real de um evento de El Niño recorde”, afirmou o cientista Zeke Hausfather, da Berkeley Earth. “Ainda é cedo demais para ter certeza.”

Os eventos de El Niño normalmente atingem seu pico de intensidade no final do ano calendário e, em seguida, causam temperaturas globais mais quentes em terra nos meses seguintes. Como resultado, muitos cientistas preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado.

Cada El Niño é diferente. Contudo, de modo geral, ele provoca condições mais úmidas em algumas partes das Américas, ao mesmo tempo em que enfraquece a temporada de furacões no Atlântico. O fenômeno aumenta o risco de seca no Sul e Sudeste Asiático, na Austrália e no sul da África.

Na Índia, que tende a ser mais seca durante os períodos de El Niño, o governo já realizou reuniões preparatórias. Vimal Mishra, professor do Instituto Indiano de Tecnologia Gandhinagar, disse que seu país não enfrenta riscos na mesma escala de mais de um século atrás. “Se em um ano a monção falhar, não veremos fome”, afirmou. Ele citou o sistema público de distribuição da Índia, que garante acesso a alimentos básicos a preços subsidiados.

Mas Mishra disse que a Índia, assim como outros países, ainda enfrenta riscos. Se houver pouca chuva, as pessoas vão recorrer às economias. Vão gastar menos. Vão fechar negócios. Durante as secas, as taxas de evasão escolar aumentam. “Isso tem um impacto direto na taxa de crescimento da economia da Índia”, disse ele.

O docente estudou as grandes fomes da Índia e traça uma linha direta entre a da década de 1870 e os preparativos que a Índia está tomando agora. “Isso nos dá uma ideia de como estar mais bem preparados. Mostra o pior que poderia acontecer.”

Fonte UOL

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